segunda-feira, 24 de junho de 2013

Para Gustavo

É a primeira vez que te escrevo, pequeno. Eu que tenho ensaiado formas de dizer aquilo que ainda não sei. Eu que tenho sentido o que jamais pensei. Olho para você e tenho ganas de chorar copiosamente, ainda que eu não saiba o motivo. Teus olhos pequenos, teus dedos longos que agarram minha mão e eu quase suplico para que não solte. Uma vida possível que deixa de ser se você não está. E sou incapaz de supor, menino, o quanto ainda hei de te amar, o quanto ainda você há de crescer em mim. Você que ocupa todos os espaços, teu sorriso pequeno, teus olhos miúdos e o meu mundo cheio de amor. Um amor delicado, com bordas contornadas, tecido do que melhor eu tenho para te oferecer. E cresce. Cresce em mim como a fé nos desesperados do poema de Vinicius. Cresce, cresce negando qualquer lei da física, extrapolando qualquer limite, tendendo ao infinito. E embora cresça assim, sem controle, de modo exponencial, não me dá medo, ao contrário, me conforta. Teus olhos, tua boca sorrindo para mim, seu bracinhos se abrindo, você, meu pequeno rapaz, é onde meu coração resolveu morar.

segunda-feira, 25 de março de 2013

"When you lose something you cannot replace"

Alguns amores vão morrendo aos bocadinhos. Ou talvez todos morram assim. A pessoa vai aos poucos perdendo um espaço que você reservou a ela com tanto apreço. Embora no início tente-se brigar contra isso, segurando tudo o que se despedaça enquanto se faz um grande esforço para recolocar o  que foi quebrado no lugar original. Você se sacrifica, abre mão de ideais que concorda para que tudo fique no lugar. Vai adiante e se esforça ao máximo sem saber que alguns amores não são feitos para durar, nem aqueles que foram construídos no ventre familiar. Principalmente esses. Porque outras pessoas entram no jogo, no segundo tempo, e disputam um sentimento o qual não lhes foi confiado, que não deveria ser disputado, que é particular demais, venal demais para que alguém de fora queira se intrometer. Nesses momentos alguns amores vão morrendo aos bocadinhos. Quando a tua palavra é colocada em xeque. Quando você se mantém em silêncio para não causar impacto. Quando manter distância é o melhor remédio. Assim, desse modo, alguns amores vão morrendo. Aos bocadinhos. E de parte em parte, de montante em montante, vai-se perdendo o que era tão importante. Você prefere deixar de intervir, de participar e começa a assistir de longe, porque de perto dói mais do que se pode suportar. E as palavras não podem ajudar a reconstruir. Quando esse amores vão morrendo pelo inexorável tempo, e você pode vê-lo escorrendo pela mão. No momento em que se percebe que não é possível voltar, retomar do zero, e se é, então, obrigado a caminhar em meio a tantas barreiras, essas que vamos construindo a cada vez que um bocadinho se perde, nesse ponto você se dá conta que não importa quem esteja ao seu lado, porque estamos eternamente sozinhos e intermitentemente acompanhados a observar os amores que vão morrendo aos bocadinhos sem que possamos algo fazer.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Amores que a gente enterra

É, querido, a gente erra. Divide a vida, o choro, o canto, o gozo, depois percebe que é uma furada sem fim e não se reconhece mais ali. Não dá para embarcar na onda se você esqueceu o pé de pato, assim você se afoga. E a gente, meu bem, a gente se afogou.  Eu não te reconheço mais, você não é o mesmo, ou foram só as lentes dos óculos que eu troquei? A verdade é que você não sabe ouvir verdades, e gosta mesmo de quem te conta mentirinhas enquanto dá tapinhas em tuas costas.

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Tô saindo fora. Deu para mim.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Âncora

para L.


Quando você era apenas uma pequena perspectiva na barriga da tua mãe eu já te chamava de irmão. Depois, quando você nasceu, crescemos e dividimos uma vida unidos por esse amor fraternal. Foi contigo que eu dividi a melhor parte da minha infância. Jogando futebol na garagem do prédio, fazendo pipa e empinando na praça, indo pro clube jogar bola. A vida se abria em infinitas possibilidades e eu chegava mesmo a acreditar que poderíamos tudo. Éramos pequenos mas em nosso sonhos navegávamos o mundo. 
Em algum momento, no entanto, a tua embarcação se afastou da minha. Da de todos nós. E não poucas vezes tentamos te trazer de volta, mas tal qual no poema da Ana C. o velame nos fugia e era impossível sirgar. Você voltava, voltava sempre, mas era cada vez menos você. Com o tempo, deixou de ser o menino chorão com quem passei a minha infância. E embora olhos ainda fossem de menino, teu corpo era de homem grande. Foi como homem formado que você saiu pelo mundo, indo cada vez mais pra longe da gente. Como homem de barba é que se perdeu nos caminhos e não conseguiu voltar. 
Um dia, quis você, assim como Ulisses, ir além dos mares que podia desbravar e se perdeu de nós. Agora tecemos a manta que há de te enrolar quando chegar o momento do teu regresso. Por toda essa tormenta só você pode passar. Domar o teu barco. Amansar o teu mar. Mas eu te lembro, meu caro, que aqui na beira da praia, além-mar, também vivemos a fúria das águas, sofremos a ressaca que destrói de modo impiedoso todos os desenhos, as castelos e as ilusões que construímos na areia. Para você e para nós. É hora de recomeçar. Fincamos bandeira no chão e se quiser, quando voltar, podemos nos tornar o Porto que acolherá o Homem. Sem âncoras. Sem amarras. O Porto no qual você poderá desfrutar da liberdade, sem, no entanto, se perder no mar, se ausentar de nós.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

2012

O mundo não vai acabar em 2012, o que realmente acontece é: só vai para 2013 quem conseguir suportar e sobreviver à merda que esse ano tem sido.

Superando 2009 com classe, aliás. Deve ser, sei lá, retorno de Saturno da Terra. Só isso explica.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Constatação

E é sempre suficientemente triste quando aquela pessoa que você ama passa ser alguém que você mal conhece.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

O jardim do vizinho...

Tá difícil ser eu, viu? Bom desde quando é fácil ser a gente mesmo?

Fácil é a vida dos outros quando a gente olha pela janela.